Eu quero começar esse artigo compartilhando com você algo muito pessoal, porém que tem total afinidade com o tema e conteúdo que vamos desenvolver hoje.

 

Eu venho de uma família de origem humilde que sempre priorizou os estudos e o trabalho como fonte de crescimento e melhoria de vida, então eu u tive a oportunidade de fazer o ensino fundamental como bolsista em um dos melhores colégios da minha cidade. Acredito que como boa parte das pessoas da minha geração, eu cresci escutando que deveríamos nos desenvolver intelectualmente se quiséssemos “ser” alguma coisa na vida. Isso quase sempre estava relacionado a ser bom em exatas ou cálculos e um exemplo disso são as olimpíadas de matemática, que demonstram o quanto a parte intelectual era tida como importante. A sociedade valorizava mais a parte intelectual ao atribuir ao Quociente de Inteligência (QI), grande parte do que uma pessoa precisava para ter sucesso na vida.

 

Porém, chega um momento da vida adulta em que essa conta não fecha. E não fechou comigo também.

 

Eu sempre fui muito estudiosa, dedicada e comprometida com o meu trabalho, então tive oportunidades profissionais incríveis para uma menina de família humilde vinda do interior. Comecei minha carreira na área jurídica como secretária num escritório de advocacia, fui serventuária do Poder Judiciário de Goiás, exerci vários cargos de gestão e liderança, inclusive em órgãos de relevância do Governo Federal e por muitos anos fui consultora de organismos internacionais como ONU, UNESCO, PNUD e OEI.

 

Porém, junto com todas essas conquistas no campo profissional, que tinham total relação com minha dedicação ao aprimoramento intelectual e técnico e ao comprometimento com um serviço de excelência eu vivi muitos momentos de estresse elevado, crises de ansiedade, depressão e até mesmo de pensamentos suicidas.

 

Em momentos extremos de desgaste físico, emocional e mental eu perdi uma longa cabeleira cacheada porque cortava todo o cabelo no dente, desenvolvi uma síndrome de túnel do carpo que me fez ficar meses com o braço imobilizado por não conseguir movimentar que por pouco não avançou para problemas mais sérios que comprometem o sistema nervoso, desmaiei 5x na mesma semana, tive muitas crises de choro e pensamento suicidas que eu não revelava a ninguém. O sofrimento e a dor eram tamanhos que a única coisa que eu queria era deixar de existir.

 

A imensa maioria desses episódios aconteceu depois que eu me inseri no universo jurídico. Mas, o que eu fazia para lidar com isso? Além das consultas médicas e medicamentos que eu tomava, eu investia cada vez mais em aprimorar meu conhecimento intelectual como se isso pudesse ser solução para todas essas questões e ainda me trazer alta performance e ser bem sucedida em todas as áreas da minha vida.

 

Hoje, depois de ter desenvolvido uma metodologia que me permite cuidar dos 3 pilares que considero essenciais para ser uma advogada de alta performance com qualidade de vida (gestão pessoal, gestão emocional e gestão de carreira), eu consigo ver com clareza os principais erros cometidos pelas advogadas e os resultados disso em suas próprias vidas. Eu vejo acontecer do meu lado convivendo com um enorme número de mulheres advogadas Brasil afora que estão se entupindo de trabalho e psicotrópicos, como se fosse normal se entupir de remédios para conseguir trabalhar e até mesmo viver.

 

Taí uma verdade que precisa ser admitida antes que seja tarde demais: a advocacia está doente e vive à base de psicotrópicos 

 

Você deve estar pensando: como assim, Kelly? Mas, é isso mesmo que você leu e digo mais, as e as mulheres advogadas tem papel fundamental nisso. Continua aqui comigo que eu vou te mostrar tudo ao longo desse artigo.

 

 

Ah, o universo da advocacia! 

 

Advogados e advogadas tem dificuldade de lidar com as situações rotineiras ao exercício da advocacia e isso vem da deficiência do ensino acadêmico que, prestigiando tão-somente as disciplinas relacionadas ao Direito, deixa de orientar ao futuro advogado quanto à necessidade de desenvolver habilidades de empreendedor – já não resta dúvida de que o escritório de advocacia é sim um empreendimento – deixa de orientar quanto à necessidade de promover a gestão eficaz do tempo, como forma de otimizar sua produtividade; de gerenciar a parte financeira do escritório e, principalmente, deixar de orientar quanto à necessidade de desenvolver competências emocionais, as quais são indispensáveis a um advogado de sucesso, já que a profissão exige, a todo momento, a interação com pessoas nas mais diversas situações e contextos.

 

O excesso de atividades a serem desenvolvidas no escritório, a pressão para atendimento tempestivo dos prazos, acolhimento dos clientes, audiências e reuniões, aliadas à quantidade de informações que devem ser absorvidas diariamente pela mulher advogada estão dentre os principais motivadores de estresse e insatisfação na advocacia.

 

Isso porque, quase sempre, a mesma profissional que se responsabiliza pela produção das peças processuais, também se dedica à captação dos clientes, à interação com outros advogados, aos estudos exigidos para atualização e aperfeiçoamento da praxe advocatícia, à gestão dos prazos judiciais e administrativos, à crítica de colegas e à pressão dos clientes por resultados satisfatórios e muitas vezes também à gestão financeira e administrativa do escritório. Ufa!

 

Obviamente que esse é o cotidiano da mulher advogada, de modo que não existe a possibilidade de não viver isso, uma vez que são atividades intrínsecas ao exercício da advocacia.

 

 

Os conflitos, a dor e o sofrimento como parte do exercício da Advocacia

 

Não bastasse tudo isso, há algo de extrema importância que permeia o universo da advocacia e quem nem sempre é notado com a devida atenção, talvez até pelo fato de se constituir no cerne da atuação dos profissionais da advocacia. O exercício da advocacia em sua gênese está ligada às relações sociais e aos conflitos que delas surgem. Costumo dizer que lidamos com o lixo emocional da sociedade, no que tange à natureza dos conflitos que nos chegam diariamente.

 

Porém, a pousar nosso olhar para além dos conflitos, o que podemos observar é que o sofrimento alheio, a dor que as pessoas sentem é o que de fato faz parte do dia-a-dia da advogada e do advogado.

 

Sim, as pessoas sofrem, e lutam contra isso! São traumas, pensamentos desagradáveis, lembranças dolorosas, emoções e sentimentos desestruturados, necessidades não atendidas muitas vezes ao longo de uma vida inteira.

 

E é com isso que lidamos no nosso cotidiano. As advogadas e advogados, num profundo comprometimento com o exercício da advocacia, na busca de concretizar os ideais de justiça, humanidade, de preservação dos direitos, por vezes se apropria disso que é do outro, suas dores, anseios e sonhos.

 

Por outro lado, esse sofrimento e muitas vezes, as dores e ressentimentos, anseios e sonhos com os quais trabalhamos, também integram a nossa própria história de vida pessoal e a nossa rotina. E é a mescla disso que é meu e é do outro, nisso que é o compromisso das advogadas com a excelência do serviço prestado e os desafios vivenciados com a profissão que é da esperança e também da incerteza ao mesmo tempo, que vivenciamos uma das profissões menos saudáveis do mundo.

 

 

A “normalidade” do assédio moral e sexual que as mulheres advogadas enfrentem no ambiente de trabalho

 

Mas, ainda não é tudo! No caso das mulheres advogadas em especial, ainda precisamos olhar com cuidado para o expressivo e absurdo número de profissionais de Direito que sofrem assédio moral e sexual no ambiente de trabalho.

 

Um estudo recente conduzido pela International Bar Association (IBA), a principal organização mundial dos profissionais militantes no Direito e das ordens e associações de advogados com quase 7 mil pessoas, apontou que o assédio moral e o assédio sexual são comuns na profissão de advogado. Aproximadamente um em cada dois entrevistados do sexo feminino e um em cada três entrevistados do sexo masculino foram intimidados em relação ao emprego. Uma em cada três entrevistadas do sexo feminino foi assediada sexualmente no contexto do local de trabalho, assim como uma em cada 14 entrevistadas do sexo masculino.

 

E, não para por aí, o Brasil e a América Latina lideram o ranking dos casos de bullying (assédio moral) e de assédio sexual contra operadores de Direito e as mulheres são os principais alvos: 70% das mulheres dizem já ter sofrido bullying em seus locais de trabalho.

 

É óbvio e ululante que isso tudo se soma para que tenhamos hoje a advocacia como uma das profissões menos saudáveis do mundo e, no caso das mulheres advogadas que já somam 50% de todo o corpo de inscritos na Ordem, um universo de profissionais desenvolvendo doenças que comprometem seu exercício profissional com excelência e toda as as áreas do campo pessoal, como são os casos de depressão, síndrome do pensamento acelerado, transtorno de ansiedade generalizada, transtorno obsessivo compulsivo e burnout, que além de doenças graves, podem ser causas dependência química, alcoolismo e até mesmo de suicídio.

 

A Advocacia está doente!

 

Infelizmente no Brasil faltam estudos exclusivos que demonstrem o que já é visível a qualquer ser humano médio: a advocacia está doente! 

 

Basta uma simples conversa com as advogadas e advogados para constatar isso. Eu mesma fiz uma pesquisa simples no meu perfil no Instagram e, embora devesse, não me surpreendi com o resultado: 79% das mulheres advogadas disseram já ter vivido episódios de depressão, transtorno de ansiedade ou síndrome de pânico e 70% conheciam alguma advogada que também viveu esses transtornos.

 

Pesquisas conduzidas pela Universidade de Harvard, mencionadas no livro “O jeito Harvard de ser feliz”, demonstram que os profissionais da advocacia apresentam índice de depressão que ultrapassa mais de três vezes a média e não só, estudantes de direito padecem de níveis perigosamente elevados de angústia mental.

 

Um outro estudo conduzido pela Associação Nacional de Advogados dos Estados Unidos em conjunto com a Hazelden Betty Ford Foundation, com aproximadamente 13.000 profissionais em 2016, demonstrou que dos entrevistados 28% estavam sofrendo depressão, 23% estavam sofrendo estresse e 19% sofrendo algum grau de ansiedade.

 

E essa é a nossa realidade, quer estejamos satisfeitos com isso ou não.

 

Os desafios profissionais são intensos, o despreparo para lidar com a realidade do mercado, a instabilidade financeira, as incertezas quanto ao futuro e o pouco ou nenhum conhecimento e prática das habilidades emocionais e de autocuidado desencadeiam uma série de transtornos que, em última análise desencadeiam doenças das mais variadas ordens.

 

Se não é fácil lidar com as nossas próprias emoções, dores e sofrimentos, que dirá ter ainda que somar ao que é nosso isso que é lidar o “pacote” do outro, seja ele cliente, chefe, colega advogado, dos colaboradores, dos familiares e somar isso ao nosso

 

Esse excesso – de informações, demandas diárias, papéis que a mulher advogada na sua vida pessoal e profissional, atividade intelectual intensa, pressão externas e autocobrança – custam a nossa saúde mental, física e emocional.  

 

E por não ter recebido a orientação adequada na faculdade e ser constantemente estimulada a investir no desenvolvimento intelectual e cognitivo, voltado para questões técnicas, a mulher advogada não desenvolveu as habilidades pessoais que lhe dão a condição não só de desenvolver sua carreira, como também de fazer isso sem perder a saúde e com qualidade de vida para viver a vida nas áreas que mais lhe importam.

 

E é assim que funciona a mulher advogada:

1. presa na armadilha do conhecimento técnico,

2. priorizando a vida profissional em detrimento da vida pessoal

3. com zero de tempo dedicado ao autocuidado e autodesenvolvimento

4. sem planejamento estratégico sobre sua carreira,

5. totalmente distante das habilidades pessoais e profissionais essenciais para alcançar alta performance.

 

Ao lidar com a complexidade dessas questões, a mulher advogada naturalizou o uso de medicamentos  como ansiolíticos, tranquilizantes, sedativos, antipsicóticos (e a lista é imensa), como se fosse de fato normal que o exercício da advocacia exigisse o consumo diário de medicamentos com o fim de fazer suportar o desafio que é viver essa realidade.  Porém, de uma coisa precisamos ter clareza: pode até ser comum a quantidade de advogadas e advogados que estão vivendo à base de medicamentos, mas isso não é normal!

 

O resultado, além de tudo o que já foi dito acima em termos de danos à saúde mental, emocional e física, é sempre mais confusão, estagnação, insatisfação, estresse, resultados limitados, distanciamento das pessoas que ama… uma lista e um ciclo vicioso que não tem fim.

 

E, em época de campanha massiva de prevenção ao suicídio, o Setembro Amarelo, fatos como esses precisam ser trazidos à tona para que as mulheres advogadas estejam conscientes e possam tomar as medidas certas.

 

Três questões essenciais que precisam ser desmitificadas

 

1.Algumas questões precisam ser desmistificadas e a primeira delas é admitir que a advocacia está doente e não só as mulheres advogadas que estão doentes. Nesse contexto é preciso afastar os preconceitos infundados que permeiam o assunto: o de incompetência de lidar com suas próprias dores e desafios, nos homens atribuído à fraqueza e nas mulheres por serem o sexo frágil, muitas acometidas pelo desequilíbrio dos seus hormônios.

 

2.A segunda questão a ser desmistificada é a de que o investimento puro e simples no desenvolvimento de habilidades intelectuais e cognitivas, a coleção de títulos acadêmicos vai trazer sucesso financeiro e reconhecimento profissional. Essa é uma falácia que precisa ser combatida com vigor. O que funciona é o desenvolvimento equilibrado da inteligência intelectual e da inteligência emocional, afinal, a maior parte de toda o exercício da advocacia está centrado nas relações interpessoais e na maneira como lidamos internamente com as questões que nos são trazidas em contraponto com as nossas próprias questões.

 

3.A terceira questão que merece ser desmistificada é a de que pessoa que pede ajuda é fraca. Ora, num ambiente árido como é a advocacia, de conflitos intensos e desafios múltiplos, é fundamental entender que a busca de auxílio profissional adequado é essencial para a construção de um contexto saudável e empoderante para a mulher advogada. Aqui também merece destaque o papel que as pessoas que já ultrapassaram esses momentos desafiadores, para que sejam também um ponto de referência, gerando suporte e empatia para com as outras mulheres (pessoas) que estejam enfrentando as suas próprias dores e desafios.

 

Na nobre profissão que escolhemos, o exercício da advocacia exige que olhemos para nós mesmas. Já dizia Michel Foucaul, quem cuida de modo adequado de si mesmo, encontra-e em condições de conduzir-se adequadamente na relação com os demais seres humanos.

 

O ponto de partida

 

Você pode começar com essas duas dicas:

 

 

1. Pratique a meditação. Existem vários tipos e técnicas, algumas de cunho espiritual, outras de autodesenvolvimento e performance. Pode ser guiada, estática ou ativa. Não importa o que nome que você dê a ela: atenção plena, respiração consciente ou mindfulness, encontre a que melhor se adapta ao seu estilo de vida e ao que faz sentido para você e comece amanhã mesmo.

 

2. Estabeleça um ritual diário de produtividade. Permita-se criar espaço para experimentar os benefícios de ter uma vida equilibrada. Uma boa maneira de começar é estabelecendo um ritual diário de produtividade.

Ao estabelecer seu ritual diário de produtividade, defina a hora de acordar, a hora de começar a trabalhar, a hora de fechar o trabalho e a hora de descansar. Quando estiver no trabalho, esteja presente a isso, elimine as distrações. Quando encerrar o expediente, encerre de verdade! Estabeleça um horário certo para isso e quando for o momento, feche o trabalho e vá viver os outros pilares da sua vida, deixando o trabalho no lugar onde ele deve ficar.

 

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Com carinho,

 

Kelly Coimbra

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