Você sabe o que é sororidade? Sororidade tem origem no latim, na palavra soror, que significa “irmã”. Apesar de não ser um termo novo, seu uso é bastante recente, e alguns dicionários ainda nem contemplam essa palavra.

Os dicionários que já trazem a definição de sororidade definem o termo como relação de união, afeição ou amizade entre mulheres, semelhante ou idealmente semelhante a relação que deveria haver entre irmãs.

Ao buscarmos a origem do termo Sororidade, podemos notar que não é algo estranho como muitos imaginam. 

Pelo contrário, percebe-se que há milênios as mulheres praticam a sororidade. Cantam juntas em círculos, realizam rituais em determinadas fases da lua, compartilham receitas de cura, lavam roupas nos rios, tocam tambor e dançam, apoiam-se umas às outras, cuidam dos filhos daquela que vai trabalhar.  Coisas que  ainda podem ser vistas em comunidades africanas, indígenas e outras ao redor do mundo. 

Isso é algo completamente diferente da concepção coletiva  trazida pelo patriarcado de que as mulheres são  competidoras, como rivais entre si.

E esse é o nosso tema de hoje: sororidade. Vamos saber mais?

 

Aprofundando a definição

“A sororidade não traz o conceito de que devemos amar todas as mulheres, mas que não podemos odiar as mulheres pelo simples fato de elas serem mulheres”. Babi Sousa

Atualmente, o termo está atrelado ao movimento feminista e seu uso pela primeira vez é atribuído à escritora Kate Millett. A feminista propôs a palavra em 1970 para construir uma ideia de luta conjunta entre as mulheres. 

O feminismo usa a palavra para trazer a ideia de irmandade entre as mulheres, independente de etnia, classe social, religiões, orientação sexual, etc. Logo ele nasce como oposição à cultura machista de competição entre as mulheres e também de submissão e subordinação das mulheres ao longo dos séculos. 

De fato, a palavra sororidade passou a ser mais usada a partir da terceira onda do feminismo. A ideia é que unidas como irmãs, poderíamos nos fortalecer e combater os males que o machismo traz para as mulheres. As feministas trouxeram a ideia do denominador comum entre as mulheres: independente das circunstâncias mais diversas em que se encontra a vida de todas as mulheres, existe algo que nos une. Pela ideia da sororidade, somos todas irmãs.

O fato de sermos iguais em nossas dores deveria ser o que nos une para enfrentar os desafios vividos por todas nós, não só em nossa cidade ou no Brasil, mas ao redor do mundo.

Todas as conquistas das mulheres, hoje, são frutos da luta do feminismo. E, de certa forma, podemos dizer que todas somos feministas, pois a luta pela igualdade é de todas. E, porque, em última análise, o que o feminismo busca é a qualidade de vida de todas as mulheres.

E aqui é importante lembrar que a aliança das mulheres não visa fortalecer um movimento de supremacia feminina, como acontece no machismo, sim trazer à consciência os  preconceitos, desigualdades históricas e opressões a que as mulheres  foram e são submetidas na sociedade e com isso fortalecer o movimento pela igualdade entre homens e mulheres.

O Feminismo não é contra os homens, que fique claro! O feminismo se interpõe contra a submissão a um sistema que inferioriza, submete e subordina as mulheres há séculos, que o patriarcado. 

Vejo como de extrema relevância trazer esse contraponto, pois muita gente tenta invalidar a natureza e a importância do movimento, tanto é que eu mesma tinha uma ideia equivocada sobre o feminismo até conhecer o trabalho incrível de várias mulheres que trouxeram essa tomada de consciência para todas nós. E só então eu percebi que a vida inteira eu fui feminista e não sabia disso.

Pois bem, o movimento feminista do Século XXI busca o feminismo da igualdade

  • igualdade entre homens e mulheres.
  • igualdade entre as próprias mulheres

 

E aqui nesse contexto, maior relevância ainda ganha o estudo e a prática da sororidade. Ponto de extrema relevância, na minha opinião, é a igualdade entre as próprias mulheres.

 

Somos todas irmãs!

A partir do momento que temos a consciência de que todas somos irmãs e vivemos oprimidas em uma sociedade patriarcal, que nos quer submissas, que inferioriza e questiona até mesmo nossa capacidade intelectual, por meio da sororidade podemos compreender que somos capazes de enfrentar e modificar essa realidade. E, mais ainda, pressupõe que nós podemos nos posicionar por essas mulheres que ainda não puderam tomar consciência dessa situação.

A sororidade trazida pelo feminismo apresenta a ideia de igualdade entre homens e mulheres e entre as mulheres, pois o conceito de sororidade pressupõe que as mulheres são iguais entre si, apesar de suas diferentes realidades. Independentemente de sua classe social, cor da pele, orientação sexual ou qualquer outra diferença que possa ser identificada materialmente.

Quando vemos mulheres em qualquer lugar do mundo, ainda que de uma religião ou cultura completamente diferente da nossa, sofrendo discriminação, qualquer forma de abuso ou violência, é o momento em que devemos nos posicionar para apoiar essas mulheres.

Precisamos compreender que nossa origem, nossa natureza feminina é a mesma, ainda que tenhamos muitas diferenças. 

A visão de que as mulheres não são unidas e que disputam entre si é fruto do patriarcado, justamente para minar nossa união e precisamos combater essa ideia.

 

Consequências do patriarcado

Infelizmente, ainda hoje muitas mulheres são tão machistas quanto os homens. Isso é fruto do patriarcado, da nossa evolução histórica, e, principalmente, da nossa educação. Nós, como mães e pais (e eu trago essa responsabilidade sobretudo para as mulheres, já que somos nós que ainda temos mais contato com os nossos filhos) temos o dever de passar uma outra visão aos nossos filhos e filhas.

Temos que cuidar da educação dos nossos filhas e filhas, a fim de não transmitir mais as velhas ideias de “coisa de menino x coisa de menina” ou que os meninos não precisam colaborar com as tarefas de casa, ou que as mulheres não deveriam trabalhar fora ou que todas as mulheres deveriam ter filhos e precisam se casar, por exemplo. 

Dessa forma, quando os meninos crescem, se tornam homens que não respeitam a situação das mulheres, muitos não respeitam as próprias mulheres e a maioria não quer participar das atividades domésticas, logo, quando se casam, não buscam uma companheira, mas sim a própria mãe. Assim podem continuar sendo servidos enquanto as mulheres  se desdobram em 3, 4 turnos para dar conta de trabalho fora de casa, cuidado com os filhos, organização da casa, quando não estão também investindo em cursos para aprimorar o intelectual. 

Nada obstante, mesmo com tudo isso, as mulheres sofrem violência doméstica o tempo todo, recebem em média 30% menos do que os homens desenvolvendo atividade absolutamente igual – no caso das mulheres negras esse percentual é ainda maior -.  

Esse é um assunto que precisa ser falado, já que nós, mulheres, estamos assumindo por completo tarefas que deveriam ser compartilhadas e sob o jugo de exigências que não são mais compatíveis com a realidade que vivemos hoje, com o universo dessa mulher moderna que também trabalha fora, estuda e contribui financeiramente com o sustento da família. 

Sem falar no caso das mulheres de baixa renda, em sua maioria negra, que são responsáveis como mães-solo por parte do sustento das famílias brasileiras. 

Precisamos nos responsabilizar por expandir essas questões junto aos homens da nossa vida: companheiro, pai, irmãos, filhos, amigos, colegas de trabalho.  Enquanto eles não estiverem presentes para a realidade das mulheres, que a construção machista do patriarcado impõe essa dura realidade não só às mulheres, mas também a eles com esse machismo tóxico e enquanto eles não se posicionarem ao nosso lado para transformação dessa realidade, ainda viveremos uma longa espera para que essa situação seja transformada.

E essa responsabilização precisa partir do individual para o coletivo. As mulheres precisam se unir, a despeito das condições que as diferenciam. Uma das grandes conquistas femininas, a meu ver, será será a igualdade das mulheres entre as próprias mulheres. 

 

Porque é importante falar sobre Sororidade?

Por mais que discordemos umas das outras, a sororidade é sobre respeito e cumplicidade. 

Criar um espaço de acolhimento entre mulheres, onde se pratica a confiança e o respeito mútuos, nos permite compartilhar e testemunhas as feridas, por vezes coletivas a que nós mulheres estamos sujeitas no dia-a-dia. Isso é muito curador e é parte essencial no processo de empoderamento feminino. 

Aqui temos  um campo fértil para a prática da empatia, a empatia  de se ver na outra. Entendida desse modo, a aplicação da sororidade está mais próxima da solidariedade que qualquer outra coisa. 

 

Precisamos nos unir

Uma pesquisa da ONU aponta que as mulheres trabalham por volta de oito horas por dia, voltam para casa e trabalham mais quatro horas, se dedicando a tarefas domésticas. Já os homens trabalham cerca de uma hora a mais nessas tarefas.

É impossível, para as mulheres, lidar com essa carga de trabalho e viver de maneira saudável, plena e equilibrada. É por isso que as mulheres estão esgotadas, e isso mostra o quanto nós precisamos nos unir.

E, da mesma maneira, significa que nós, mulheres que estamos em condições privilegiadas em relação a outras mulheres, especialmente a condição das mulheres pretas, também precisamos nos posicionar por elas.

As mulheres pretas ainda se encontram em desvantagem em relação às mulheres brancas. Para todas as mulheres é difícil sobreviver neste mundo, onde temos, a todo tempo, que buscar maneiras de nos defender. E as mulheres pretas passam por essas situações de maneira ainda mais acentuada.

A questão da diferença salarial, por exemplo, como mencionado acima: o abismo entre o salário de homens e mulheres chega a 30%, e é ainda maior para as mulheres pretas. Infelizmente, o Brasil ainda tem muito forte a cultura da empregada e da faxineira. Na maioria dos casos, essas funções são desempenhadas por mulheres pretas. Esse fato espelha o lado racista da cultura patriarcal, que vem desde a época da escravidão, quando as mulheres pretas eram obrigadas a servir as mulheres brancas.

Mesmo com a abolição da escravatura por meio da Lei Áurea, as mulheres continuaram sem acesso a direitos, e, sem mais nenhuma opção para garantir sua sobrevivência, passavam a trabalhar na casa das pessoas brancas. O que serviu para perpetuar essa condição de desigualdade até os dias de hoje.

 

Como praticar a sororidade?

Praticar a sororidade exige, de certo modo, um processo de reconstrução. Reconstrução dos modelos coletivos  que trazem o julgamento em primeiro lugar, a rivalidade, o desamor, discriminação, o próprio machismo enraizado que praticamos sem perceber. 

Não é algo que acontece de um dia para o outro, porém os primeiros passos são essenciais e são significativos ao longo desse que deverá ser um longo e contínuo processo de transformação. 

Uma das primeiras coisas a se compreender é que à sororidade se impõe acolher as diferenças entre as mulheres, tais como 

  • brancas e pretas
  • pobres e ricas
  • orientação sexual
  • local de nascimento, etc.

 

E, tendo isso em mente, podemos  nos valer das dicas abaixo para começar a exercitar a sororidade com as mulheres com as quais tivermos algum tipo de contato. Vejam só:

  •  Não julgar uma mulher que toma atitudes diferentes das suas (forma de se vestir, jeito de levar a vida, planos para carreira e vida pessoal, etc); 
  • Não xingar mulheres pelo simples fato de serem mulheres;  
  • Apoiar outras mulheres;
  • Levar em consideração a voz da mulher nas diferentes situações;
  • Colocar-se no lugar de outra mulher antes de julgá-la;
  • Mudar a perspectiva de um ponto de vista puramente masculino;
  • Valorizar o trabalho de outras mulheres;
  • Empoderar e compartilhar os seus conhecimentos com outras mulheres.
  • Participar de movimentos, projetos e círculos de apoio a outras mulheres. 

 

É tempo de mudança!

Portanto, mulheres que estão em condições privilegiadas precisam se posicionar e acolher as que estão sofrendo de maneira ainda mais intensa os efeitos do patriarcado.

Contudo, quando falamos em sororidade, não quer dizer que temos que concordar com tudo que as outras mulheres fazem ou dizem. A sororidade diz respeito ao acolhimento das mulheres que estão em situação de abuso, violência e vulnerabilidade.

Praticar a sororidade não quer dizer que todas tenhamos que ter a mesma orientação política, ou mesma religião. O caminho é respeitar nossa igualdade dentro da nossa diferença e respeitar nossa diferença dentro da nossa igualdade.

Precisamos entender que, mesmo com as nossas diferenças, nós somos iguais. Isso porque a nossa origem é a mesma, a natureza feminina é a mesma. Posso ser uma mulher que acolhe outras mulheres de maneira incondicional, no que diz respeito às situações impostas pelo patriarcado.

Precisamos reconhecer que sim, ainda somos machistas, e o somos pela herança sócio-cultural que recebemos, mas que está em nosso poder mudar essa situação. 

Precisamos compreender também que a busca pela igualdade compreende, em especial, uma busca pela qualidade de vida de todas as mulheres. E que, nesse contexto, é essencial que o nosso primeiro norte seja o da igual

Podemos transformar essa situação falando de mulher para mulher, educando nossos filhos, dialogando com nossos pais, companheiros, irmãos, colegas de trabalho.

Talvez não tenhamos tempo suficiente de ver ou viver todas as mudanças que a nossa união e movimento podem gerar, mas precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo: por nós, por quem amamos, pela nossa geração e pelas futuras gerações. 

 

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Vejo você no próximo artigo! 

 


Com carinho,

Kelly Coimbra

 

 

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